quinta-feira, 23 de agosto de 2012

PERIGO REAL E IMEDIATO - por Lédio Carmona

Respeito a preocupação com a segurança. Não suporto mais ler e ouvir histórias de mortes de torcedores devido a confrontos boçais contra desafetos. A rivalidade no futebol deixou de ser saudável para se tornar algo intragável. Tudo é verdade. Mas nada disso justifica a decisão de que o clássico de domingo entre Cruzeiro e Atlético Mineiro seja disputado com torcida única. No caso, por ser mandante, apenas o Cruzeiro terá torcedores no Estádio Independência. O Atlético Mineiro, líder e melhor time da competição, será obrigado a ter seus fiéis adeptos condenados a ficar em casa numa partida importantissima e disputada “dentro de casa”.
Se o Cruzeiro fosse o punido a ficar em casa minha opinião seria exatamente a mesma. A segurança pública tem o direito e dever de tomar suas decisões, mas o clássico de torcida única é um tiro no pé da sociedade. É assumir de vez que não há soluções para banir vagabundos e bandidos dos estádios. É assumir que toda praça esportiva é um barril de pólvora e que o cidadão de bem deve pensar 567 vezes antes de ir a uma arena (termo da moda).

Se o Independência não está preparado para os perigos do clássico, lamento mais ainda. Tão novo, tão belo, motivo de orgulho para os mineiros, deve estaria pronto para receber o principal jogo do estado. O tema sobre segurança do torcedor deve ser prioridade sempre. Relativizar e tomar a decisão medonha do jogo com uma torcida só é  lavar as mãos. É uma espécie de amputação do espetáculo. Um jogo de futebol tem duas torcidas e são elas que ajudam a incrementar a emoção em campo. Domingo, no Independência, só teremos um lado. O outro fica em casa. Como se isso evitasse confrontos. Alguém duvida que haverá problemas e badernas dos vagabundos pelas ruas de BH? E quem disse que não há briga entre representantes de uma mesma torcida?

O mais grave é que a prática corre risco de virar moda. Primeiro, justificava-se a decisão pelos clássicos em Sete Lagoas. Agora, com estádio pronto, repete-se o protocolo em Belo Horizonte. Não se surpreendam que a prática, daqui a um tempo, se estenda para outros estados. Repito: as autoridades tem todos os motivos para temer pela segurança  dos torcedores do bem. Deve mesmo trabalhar muito em cima do tema . Porém, na minha humilde opinião, inventar jogo de torcida única, é trancafiar gente de bem dentro de casa por causa de meia dúzia de pilantras. Pode ser o começo do fim. Ou simplesmente a dolorosa rendição da sociedade brasileira que ama, vive o futebol e tem o estádio como extensão da sua casa.

por Lédio Carmona - globo.com

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